quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O celular não depende de Apple e Google

No século 16, o poeta John Donne dizia que nenhum homem é uma ilha. No século 21, qualquer um pode dizer: o celular também não. Estamos todos obcecados com o iPhone, da Apple, e o G1, o primeiro celular com Android, o sistema operacional do Google para a internet móvel. Bem, eu pelo menos estou, e carrego os dois, na bolsa, para todo lado que vou. Mas quem vai realmente moldar o celular do futuro não será a Apple nem o Google. É a turma que desenvolve os aplicativos para celular num esquema de colaboração. São programas que tornam um sistema mais útil, ou mais divertido, ou mais desejado, ou necessário, ou mais interessante, ou o que quer que seja. Não um sistema. E uma empresa sozinha, por mais que caia de amores por sua tecnologia proprietária, não consegue fazer, isolada, o que realizam milhares e milhares de programadores espalhados pelo mundo, dentro ou fora das empresas.

O sucesso do iPhone se deve a sua interface revolucionária — ninguém duvida disso. Mas alguém duvida que ele precisa de grandes aplicativos para avançar para o próximo nível? Antes mesmo de a Apple oferecer seu SDK — Software Development Kit — já havia gente programando para o iPhone. E hoje a Apple Store é o barato que é não por aplicativos da própria Apple, mas por contribuições anônimas ou conhecidas de pessoas ou empresas que antes não tinham nada a ver com a marca. IBM, Salesforce e Oracle são apenas alguns dos nomes que surgem em meio a uma multidão.

 

No caso do G1, a força dos aplicativos de terceiros é ainda mais óbvia, porque o Google estimula a colaboração com regras muito mais soltas — e inclusive já delegou para usuários em geral a avaliação dos programas. No Android Market, a sua versão de Apple Store, os aplicativos são qualificados de acordo com as estrelas dadas pelos próprios usuários. O G1 já nasceu embalado pelos entusiastas do software livre — e contar o número de aplicativos ofertados pode virar um hobby. No dia 23 de dezembro, eles eram quase 500.

O vigor dos programadores já foi demonstrado no fenômeno Palm, no passado. Ninguém sabe mais disso do que a Nokia, a maior fabricante de celulares do mundo, e a que mais tem a perder neste momento de ruptura. Não por acaso virou sua estratégia do avesso para criar a fundação Symbian, a fim de padronizar o sistema e depois abri-lo como open source — expressão mágica para atrair voluntários por toda parte. Com seu poder de fogo e os milhões de fãs que tem, programadores incluídos, as chances da Nokia de montar uma rede de colaboração poderosa em torno de si são consideráveis. Vai ser uma disputa formidável entre Apple, Google e Nokia. Com a palavra final, o pessoal dos aplicativos.

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