segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

O Futuro da Microsoft

Imagine que você tivesse acordado, hoje, na pele de Steve Ballmer, CEO da Microsoft. Bill Gates agora se dedica a seus projetos beneficentes. Assim, sobrou para você resolver os problemas. E não são poucos. O Windows Vista gerou uma gritaria de usuários e fabricantes descontentes. A Apple ridiculariza quem usa PC em seus anúncios e ganha participação no mercado. O iPhone atrai as atenções e a Microsoft não consegue aprontar uma nova versão do Windows Mobile para competir com ele. Apesar de todo o investimento feito no Xbox, o console mais vendido é o Wii, da Nintendo.

As ações da Microsoft na bolsa estão praticamente estagnadas há nove anos. Os programadores mais brilhantes agora querem trabalhar no Google e no Facebook. E, como se não bastasse a ofensiva do software livre, a computação em nuvem ameaça roubar os lucros das vendas do Windows e do Office. Se você fosse Steve Ballmer, teria vontade de sair correndo e ir gastar seus bilhões numa ilha do Caribe, certo?

Ballmer não parece ter a intenção de fugir. No ano passado, ele declarou que ficaria mais dez anos na Microsoft. Como comandante de um transatlântico — lento nas manobras, mas com recursos abundantes a bordo — terá de competir com empresas muito mais ágeis num mundo em rápida transformação. Até aqui, os resultados não são ruins. Em 2008, a Microsoft vinha fechando seus balanços no azul enquanto outras companhias contabilizavam prejuízos. No trimestre de julho a setembro, registrou 6 bilhões de dólares de lucro operacional. A receita foi de 15 bilhões de dólares, 5% menor que a do trimestre anterior, mas ainda 9% superior à do mesmo período de 2007.

 

Rumo à nuvem
A Microsoft não conta qual é a contribuição de cada produto para seus resultados financeiros. Mas é certo que o grosso do faturamento vem da venda de licenças de uso de software, com o Windows à frente. O avanço da computação em nuvem traz dúvidas sobre o futuro desse modelo de negócios. Ray Ozzy — o homem que ocupa o cargo que já foi de Bill Gates, de arquiteto-chefe de software — parece estar empenhado em levar a empresa a outros caminhos. Conhecido como criador do Lotus Notes, Ozzy está na Microsoft desde 2005. Naquele ano, a companhia adquiriu a Groove Networks, empresa fundada por ele, por 120 milhões de dólares. A percepção do mercado é que o objetivo número 1 da compra foi levar Ozzy para a Microsoft.

Num memorando que circulou por toda a companhia e acabou se tornando público, e em conferências da Microsoft, Ozzy tem dito que a missão da empresa está mudando. Não é mais produzir software para PCs e servidores isolados. É criar conexões entre dispositivos e pessoas. Ele não está abandonando o Windows ou o Office, é claro. Mas diz que os programas da Microsoft vão depender mais da interação com outros. Diz, também, que os serviços na web vão ganhar importância em relação ao software local. Em vez de vendas discretas de licenças, os negócios serão cada vez mais baseados em assinaturas e receita publicitária.

A Microsoft parece já ter traçado um limite para o que vai para a web. Em visita ao Brasil, em outubro de 2008, Steve Ballmer criticou a proposta de uma computação totalmente baseada no data center. “Há quem pregue uma volta ao tempo do mainframe, em que tudo era centralizado. Dizem que vai ser centralizado na internet. Eu não acredito nisso. Vamos ter também aplicativos avançados no lado do cliente. Vão rodar no browser ou fora dele”, disse.

 

Azure no comando
Os executivos da empresa vêm usando a expressão software mais serviços para resumir essa estratégia. “No futuro, uma parte da receita da empresa virá de assinaturas de serviços corporativos como o Exchange Online e, talvez, o Windows Azure. Vai ser difícil distinguir a venda de software da venda de serviços”, diz Matt Rosoff, analista da empresa americana Directions On Microsoft. A Microsoft já deu alguns passos nessa direção, seguindo o caminho aberto por concorrentes como a Salesforce.com. Nos Estados Unidos, ela passou a oferecer, em 2008, versões online de aplicativos como o CRM Dynamics, o sistema de colaboração SharePoint e o e-mail Exchange. Entre os clientes desses serviços, está a Coca-Cola, que tem 70 mil caixas postais hospedadas nos data centers da Microsoft. Para Michel Levi, presidente da Microsoft Brasil, o modelo exato dependerá do segmento de mercado. “Vai de 100% serviço a 100% software, com todas as variações possíveis entre esses dois extremos”, diz ele.

No caminho da Microsoft para a computação em nuvem, o próximo passo é o Windows Azure. Apresentado em outubro ainda em versão alfa, ele será uma plataforma para que empresas desenvolvam os próprios aplicativos na nuvem. Também nesse caso, a trilha já foi aberta pelos concorrentes. O pioneiro Elastic Compute Cloud (EC2), da Amazon, foi ao ar em 2006. O App Engine, do Google, começou a ser oferecido em versão beta em abril de 2008. O Windows Azure vai gerenciar aplicativos e recursos na nuvem. Vai estabelecer qual servidor vai rodar determinada tarefa (algo que o usuário nem precisa saber), por exemplo. Para complementá-lo, a Microsoft conta com a versão em nuvem do gerenciador de bancos de dados SQL Server, chamada SQL Services, além de uma série de ferramentas de desenvolvimento.
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Office na web
No campo da computação pessoal, as coisas são mais complicadas para a Microsoft. Nessa área, há crescente predomínio de serviços gratuitos, pagos por publicidade. A empresa tem sido bem-sucedida com o Messenger e o Hotmail, mas não é fácil estender esse modelo a outros produtos. Matt Rosoff é cético em relação a quanto a empresa pode avançar na publicidade online, um território dominado pelo Google. “Apesar de toda a insistência de Ballmer em transformar a publicidade numa fonte de receita importante, não acho que ela vá passar de 5% do faturamento num futuro próximo”, diz ele.

 

Desde 2005, a empresa vem investindo na marca Windows Live, que já chegou a reunir mais de 40 projetos. Na lista estão desde produtos maduros, como Hotmail e Messenger, até coisas experimentais como o Windows Live Expo, site de classificados que nunca decolou e foi fechado em julho de 2008. “Não somos recém-chegados. Temos experiência em atender a milhões de usuários em serviços como o Messenger e o Hotmail. Agora, estamos criando os modelos de negócios”, diz Osvaldo Barbosa de Oliveira, diretor-geral de mercado de consumo online da Microsoft Brasil. No início de dezembro, os serviços Windows Live que já operam regularmente foram reunidos num portal único. Com jeito de rede social, o site parece ter sido projetado para competir com orkut e MySpace. Mas também inclui recursos de escritório online como o serviço de armazenamento SkyDrive e o Espaço de Trabalho do Office Live, com 25 GB para os arquivos.

O Windows Live não tem aplicativos no estilo do Zoho e do Google Docs. Mas a Microsoft confirmou, em outubro, que está desenvolvendo o Office Web, versão em nuvem de seu pacote de aplicativos. Terá edições simplificadas dos programas Word, Excel, PowerPoint e OneNote para acesso por meio do browser. A previsão é de que o serviço ficará pronto junto com o Office 14, no fim deste ano ou no início de 2010. A empresa não diz se vai cobrar assinatura ou custear o Office Web com publicidade — e é bastante possível que nem tenha decidido isso ainda. O fato é que o Office está mais ameaçado pela computação em nuvem do que o Windows. Mesmo que as pessoas usem apenas aplicativos na nuvem, elas ainda vão precisar de um sistema operacional local — seja num micro, num smartphone ou em algum tipo de terminal. Já um pacote de escritórios local pode ser dispensado se o serviço na web atender às necessidades do usuário. No mínimo, a empresa vai ser forçada a baixar o preço do Office, o que já vem acontecendo em algum grau.

Windows 7 a caminho
Ainda que novos produtos ganhem importância, o Windows deve continuar sendo a base de boa parte dos negócios da Microsoft nos próximos anos. O sistema operacional vem pré-instalado em cerca de 90% dos micros vendidos no mundo. Em maio de 2008, Bill Gates divulgou que 140 milhões de cópias do Windows Vista haviam sido comercializadas, apesar da torrente de críticas que o software recebeu. É um belo número, mas a Microsoft tem pressa em aprontar seu sucessor, o Windows 7, para tentar apagar a má imagem. Prestes a entrar em beta público, o Windows 7 deve ficar pronto no final deste ano ou no início do próximo.

 

Pelo que pode ser visto até agora, o Windows 7 não trará mudanças drásticas. Deve manter a compatibilidade com os aplicativos e o hardware existente. Afinal, um dos problemas do Vista foi encrencar com equipamentos mais antigos. Bill Gates já disse que outro objetivo é melhorar o desempenho do sistema. É mais uma tentativa de apagar a má fama do Vista, considerado lento pelos usuários. Componentes como Windows Mail, Movie Maker e Galeria de Fotos, que fazem parte do Vista, não serão mais incluídos. Em vez disso, os usuários vão baixá-los da web. Aparentemente, a Microsoft espera, com isso, oferecer aplicativos mais elaborados — hoje os do Windows perdem feio para os do Macintosh — sem atrair mais processos anti-monopólio. Além disso, há pequenas novidades como a barra de tarefas redesenhada, uma função que mostra slide show na área de trabalho e pastas virtuais para vários tipos de documentos e arquivos de mídia, chamadas de bibliotecas.

A empresa é lenta?
Os críticos mais ácidos da Microsoft costumam apontar que, como outras grandes empresas de software, ela continua desenvolvendo e vendendo seus programas como fazia há 15 anos, antes da popularização da internet. “Nos últimos 14 anos, as grandes inovações tecnológicas vieram não dos laboratórios de empresas, mas das redes colaborativas”, diz Marcelo D’Elia Branco, coordenador-geral da Associação Software Livre. Para ele, esse modelo de negócios tende a perder espaço para o software livre, que, na avaliação dele, se move com mais agilidade. “Quando encontra restrições no uso do software, o usuário pula para o modelo aberto”, diz.

A visão de Matt Rosoff é diferente. Ele observa que a estratégia da Microsoft não é sair à frente com novas tecnologias. “É uma empresa conservadora, do tipo que chamamos de ‘fast follower’. Acho que isso é um ponto forte. Ela pode observar quais mercados e tecnologias vão permanecer, e quais são passageiras”, diz. Para Rosoff, a lentidão nas manobras não é necessariamente um problema — desde que a velocidade final seja alta o bastante para alcançar os concorrentes que largaram à frente.

 

Fonte: Info

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