quarta-feira, 4 de março de 2009

O netbook muda tudo

Quando o primeiro kit de computador pessoal começou a ser comercializado, em 1975, foi taxado de brincadeira de criança. Aquele PC primordial, chamado de Altair 8800, fez um sucesso enorme. Foram 4 000 unidades vendidas em três meses, cinco vezes mais do que o previsto para um ano. Mesmo assim, Ken Olson, presidente e fundador da Digital Equipment Corporation, uma das empresas pioneiras na fabricação de grandes computadores, disse que não via nenhuma razão para as pessoas terem computadores em casa.

A IBM, na época líder indiscutível na indústria da tecnologia, manteve-se cética em relação aos computadores pessoais por seis anos. Preferia concentrar esforços nos mainframes, os computadores de grande porte usados por grandes companhias. Quando cedeu, uma equipe de apenas 12 profissionais foi destacada para o desenvolvimento do equipamento, uma prova de que a IBM não acreditava muito no PC. Mas a computação evoluiu rápido e provocou uma revolução tão grande que transformaria para sempre a dinâmica do mercado e também o que se entende por computador. Desde então, as máquinas usadas em escritórios e residências têm se tornado cada vez mais poderosas e complexas - até o surgimento de uma novidade chamada netbook.

Lançado em outubro de 2007 pela Asus, uma empresa de Taiwan, o Eee PC introduziu uma idéia que muitos julgavam impensável na indústria dos PCs: um computador que faz menos. Apesar da tela pequena, do teclado apertado, do chip menos potente e de algumas outras limitações técnicas, o Eee PC foi um sucesso imediato. Logo no primeiro ano, 1 milhão de unidades foram vendidas. Os outros fabricantes foram pegos de surpresa pela novidade e logo correram para lançar suas próprias versões de netbook.

 

Resultado: em 2008, as vendas desses minilaptops saltaram para 11,7 milhões de unidades. A expectativa é ainda melhor para este ano. Segundo a empresa de pesquisas Gartner, devem ser vendidos cerca de 21 milhões de netbooks, crescimento de quase 80% no ano. "Acho que essa é uma tecnologia revolucionária", afirma Michael Horn, co-autor da teoria das inovações de ruptura e diretor executivo do Innosight Institute, dedicado à aplicação do conceito. De acordo com Horn, os netbooks têm os sinais clássicos de uma típica inovação que vai mudar o rumo da indústria.

A explicação para esse interesse é a característica que define os netbooks: eles nunca se venderam como uma substituição a um computador de mesa, pelo contrário. Como o próprio nome diz, o netbook é um PC que existe para a internet. É uma ótima opção para ler notícias na sala de espera do aeroporto. Um netbook também é mais que suficiente para editar planilhas ou documentos de textos e ler e enviar e-mails, tarefas típicas de um executivo em viagem de trabalho. Não se espera que essas máquinas sejam capazes de rodar um jogo de última geração ou que armazenem imensas quantidades de dados. Mas é justamente por isso que os netbooks são potencialmente revolucionários. Eles são muito mais baratos que um laptop tradicional e são bons o suficiente para desempenhar as funções básicas de um computador. Para um número cada vez maior de pessoas, esse é o maior dos atrativos.

Outro fator que deve estimular a adoção dos netbooks é o interesse das operadoras celulares. Todos os modelos contam com acesso à internet sem fio - e agora um número crescente de modelos também vem com um chip de operadora de telefonia móvel, o que permite a navegação nas redes 3G mesmo quando não existe a possibilidade de conexão a uma rede Wi-Fi. No Brasil, modelos da Positivo em parceria com a Vivo chegam em março ao mercado. Quem comprar um netbook poderá experimentar a rede da Vivo de graça por três meses e, depois disso, fazer um contrato de dados com a operadora.

 

Os grandes fabricantes de computadores insistem que os netbooks são apenas uma nova categoria de máquinas diminutas e fazem comparações com PCs mais potentes. Mas, para Horn, essa é uma tentativa de criar uma cortina de fumaça. "Eles são chamados de brinquedo de criança, como aconteceu com os primeiros PCs", diz o especialista. No fundo, esse aparente desprezo é uma tentativa de proteger os laptops - e suas polpudas margens de lucro. Mas o fato é que os consumidores, especialmente os usuários finais, já foram arrebatados pela praticidade dos netbooks, e não deve demorar muito para que o mesmo aconteça com as grandes empresas. A retração no consumo que se observa em todo o mundo inevitavelmente vai chegar aos produtos de tecnologia. Para o uso típico de uma equipe de vendedores, por exemplo, a substituição dos laptops pode representar uma economia substancial para as empresas.

Apesar de no Brasil os preços ainda não serem tão mais baixos, em países como os Estados Unidos os netbooks podem ser encontrados por cerca de 250 dólares. A fabricante nacional Positivo oferece máquinas a partir de 799 reais e vendeu 45 000 netbooks em 2008, para consumidores das classes A e B que já têm dois ou até três computadores. Mas, neste ano, os minicomputadores podem atingir entre 15% e 20% das vendas de computadores móveis, um bom número para o segundo ano de vendas.

A HP também identificou a oportunidade da categoria e em 2009 vai trazer três novos modelos para completar as ofertas e somar quatro opções de netbook da marca no país. Entretanto, como no Brasil apenas 25% dos domicílios têm computador, possivelmente muitos ainda devem optar por um desktop como sua primeira máquina. A estimativa é que as vendas passem das 100 000 unidades de 2008 para algo como 300 000 neste ano, segundo a companhia de pesquisas IDC. É pouco ainda em relação aos 3,4 milhões de notebooks que serão vendidos em 2009, mas são os primeiros passos em direção à nova ordem dos PCs.

 

Além de mexer com a indústria do hardware, os netbooks já fazem sentir sua influência entre as empresas de software. Quando surge uma tecnologia de ruptura, toda a cadeia de distribuição e o sistema em torno tendem a mudar. Nos anos 80, o surgimento dos PCs padronizados fez com que o quase inexistente mercado de software ultrapassasse o de hardware e permitiu à Microsoft ser o que ela é hoje. Agora, é a posição de liderança no mercado de sistemas operacionais da empresa de Bill Gates que ganha um novo concorrente. É claro que existem netbooks com Windows, mas uma porcentagem importante dos modelos de hoje são baseados no sistema Linux, que é gratuito e aberto.

Existem iniciativas para criar um sistema operacional específico para netbooks, mais simples e otimizados para as limitações do equipamento. E já apareceram relatos de hackers que conseguiram instalar até mesmo o Android, um sistema criado pelo Google para rodar em telefones celulares, em um minilaptop. É claro que os netbooks não vão substituir por completo os computadores de mesa ou os notebooks tradicionais. Mas os pequenos notáveis representam um novo ímpeto de inovação em um mercado bilionário - e que agora terá de aprender que os consumidores não estão interessados somente no que é mais rápido, mais moderno e mais potente

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